Para contrapor a versão do Boi Falô que a Prefeitura de Campinas oficializou como única, iremos , a partir de hoje, publicar os mais antigos registros da versão tradicional de Barão Geraldo anteriores à unica versão imposta pela Prefeitura (a partir da Secretaria de Cultura) APÓS a colocação da festa, criada em 1988, no calendário oficial de Campinas (1996). Até o momento, na pesquisa dos historiadores, a primeira vez que a mídia de Campinas (antigo jornal Diário do Povo) publicou sobre o Boi Falô foi em 1973. É claro que antes disso a lenda era conhecida por populares porem antes haviam pelo menos 3 versões: a do Cemitério/Vila Industrial (cujo principal personagem era o Toninho), a de antigos empregados ou rendeiros da Fazenda Santa Genebra (que fala de um carro para atrelar os bois, mas não em ano nenhum) e de Barão Geraldo (que não tinha Toninho nem ano, mas falava do Capão do Boi). Veja a primeira do historiador e jornalista negro (ou mestiço) campineiro Jolumá Brito, pesquisador premiado com mais de 20 livros de pesquisa sobre Historia de Campinas e vários municípios da região, fundador da Associação Campinense de Letras.
O texto é do historiador e antropólogo Warney Smith Silva que pesquisa a história de Barão Geraldo . Antes ele aborda o que as universidades e os pesquisadores sociais falam das lendas
O QUE É UMA LENDA E O SIGNIFICADO DA SEXTA FEIRA SANTA
Em termos oficiais de intelectuais TODA LENDA,MITO OU CAUSO TEM INÚMERAS VERSÕES. O natural é que cada pessoa que conte , aumente um ponto E é aí que esta a beleza das tradições. Porém toda lenda, mito ou causo tem uma narrativa central comum mínima, sem os detalhamentos de cada um.
A lenda do Boi Falô é uma dessas. E que não existe somente em Barão Geraldo (como muitos antigamente pensavam) Mas também é uma das principais lendas de Capivari, e já foi registrada outras cidades de São Paulo e Goiás, nos Estados Unidos E como sabemos há diversas lendas de bois que falam entre etnias africanas e na Índia.
Sua narrativa não diz respeito ou tem a ver com a escravidão, mas com a manifestação de Deus no dia da morte de Jesus a sexta feira de Páscoa. Conforme contam os historiadores e todos os registros mais antigos de Campinas, a Páscoa sempre foi, entre todas, a tradição cultural mais importante e mais mobilizadora da História da cidade. Que sempre foi fortemente respeitada e vivida intensamente ano a ano. A que tem maior quantidade de registros, produções , textos , documentos eventos etc. Mais que o Natal. No século 19 , durante a Páscoa todos andavam de preto, as mulheres se cobriam todas e não saiam de casa, exceto para ir à missa.
A tradição da Sexta Santa e da Páscoa foi criada pela Igreja Católica em um de seus primeiros concílios e imposta em toda a Europa, durante toda a Idade Média e também por toda a Era Moderna até hoje é o que justifica a Sexta Feira Santa como Dia de Luto Oficial e que – durante toda a Colonização – tornou-se uma das principais tradições do pais e o que justifica ser feriado.
Sabemos que o mito ou lenda do Boi Falô (de Barão) já existia desde o início do Século 20 porque vários antigos moradores de Barão, vivos em 1920, relataram ter ouvido o “causo”. Porém isso se deu somente após o primeiro registro da lenda em Campinas, que foi do primeiro historiador “negro” (mulato ou mestiço) da cidade, Jolumá Britto, no Diário do Povo de 30 de junho de 1973. Além de ter sido o maior cronista, pesquisador e divulgador da História de Campinas, Jolumá Brito fundou a Academia Campinense de Letras , da qual foi presidente e escreveu mais de 20 livros sobre Historia de Campinas e outras cidades da região.
Jolumá foi um dos autores que mais pesquisou e escreveu sobre historia de Campinas e sobre a Semana Santa. Na época em que ele escreveu no texto abaixo, a Prefeitura de Campinas ainda realizava anualmente uma Semana do Folclore coordenada pela professora Alba Vidigal no mês de agosto E EM NENHUMA DELAS abordou o “causo” do Boi Falô não sabemos porque (As semanas de folclore ainda duraram até pelo menos os anos 1980). Presumimos que seja uma desvalorização mesmo, por preconceito, com o que nasce localmente – como ocorre no Brasil, só é valorizado décadas depois. Mas também percebemos que a versão tornada oficial pela Prefeitura de Campinas não era conhecida em Barão. Provavelmente em Campinas e originada em torno do culto ao túmulo do ex escravo e capataz da Fazenda, Toninho. Que historicamente já era capataz quando Geraldo assumiu a fazenda em 1870 e se tornou “milagreiro” após seu túmulo ser trazido para ao lado do túmulo do Barão, após a morte dele. Em Campinas havia uma outra lenda sobre Toninho que nada tem a ver com o Boi Falô. (a de que ele levou um tiro na perna e teve que ser amputada por causa da gangrena, quando já era livre e cocheiro do Barão poucos anos após sua morte. (ele nunca foi escravo doméstico). Mas nesse texto, Jolumá também comete alguns erros quando diz que o causo ocorreu na Fazenda Rio das Pedras ou ao dizer que o “solar” da Santa Genebra, mandado construir pelo futuro Barão em 1870, foi um “solar do conselheiro Albino” (que mandou construir a primeira sede da Fazenda Rio das Pedras em 1856, conforme ele mesmo cita em seu livro de memórias. E que nada teve a ver com o sobrado da Santa Genebra do Barão Geraldo, cujos moradores querem o Tombamento e preservação para futura visitação comercial.
Importante ressaltar também que Barão Geraldo tem mais de 20 causos ou lendas contadas pelos antigos. Praticamente todas adaptações de mitos ou lendas de outras partes do Brasil e do mundo. Como a do “corpo seco”, a do “boitatá” (que tem uma adaptação local) a das das santas que andam e várias outras.
Então aqui está a primeira delas registrada em 1973. É BASTANTE POSSÍVEL QUE HAJA OUTROS REGISTROS ANTERIORES NOS ARQUIVOS DO DIÁRIO DO POVO, CORREIO POPULAR , PREFEITURA, JORNAL “A DEFESA” E OUTROS. Porém é preciso um bom financiamento e vontade politica para encontra-los:
“Dizem os moradores dali (Barão Geraldo) que no século passado, trabalhava lá na Santa Genebra um caboclo muito mandrião, bom trabalhador, mas respeitador, acima de tudo, dos feriados e dias santificados. É que, por tradição, também ali, o campineiro sempre manteve a de grande amor e devoção aos santos e às suas’ igrejas, respeitador sagrado das leis divinas! De maneira que, nas Semanas Santas, principalmente, na cidade campineira, depois do meio dia da sexta-feira chamada Maior, ninguém trabalhava: os carros de praça recolhiam-se, bondes não trafegavam, carroças ficavam paralisadas em seus abrigos e o silêncio em toda cidade seria, até, aterrador! Todo mundo corria para a igreja, para rezar ao Senhor morto! No interior desciam panos roxos também cobriam altares e imagens de’ santos, num respeito profundo de amor a Jesus!
Numa certa sexta-feira, a chamada “Maior” esse caboclo cujo nome a história não guardou, fora mandado pelo proprietário da fazenda, até junto a um pé de cabreúva onde estava parada uma manada de bois, para recolhê-la ao curral. Tanto assim é que o local ficou conhecido como Capão do Boi. E lá se foi o empregado, contrariadíssimo, para cumprir a ordem recebida. Daí a poucos momentos, no entanto, voltava ele esbaforido, correndo, suando em bicas e gritando para os companheiros: — “Volte, gentes! Eu tava tratando de tocar a boiada quando ouvi uma voz grossa, vinda de não sei donde, dizendo assim: — “Hoje é sexta fêra santa, num é dia de trabaiá… Num é dia de trabaiá… É sexta fêra santa!”
E, ingênuos como soía ser naqueles tempos toda aquela gente, onde se misturavam ao negro os italianos principalmente, todo mundo quis ouvir a história repetida pelo próprio que ainda estava com cara de assustado.
– “Verdade sim moçada: o boi falô memo, falô que em sexta fêra santa num é dia de trabaiá…”
Claro que ele ficou na boa vida o resto do dia e da tarde sonolenta que se derramava ali pelas redondezas da antiga fazenda de Nossa Senhora do Rio das Pedras.
Pouco depois o comentário tomava corpo e a história foi se repetindo de sítio em sítio, de casa em casa, de senzala em senzala, impondo mais respeito àquela gente toda que não se cansava de benzer e rezar pelo Senhor!
Até hoje, quem passa por Barão Geraldo e que conhece a história, lenda ou seja o que for, o faz mugindo feito boi somente para arreliar com os moradores dali: “Múúúúúúúúúú!
Jolumá Brito
Jolumá Brito foi o mais famoso e o primeiro historiador “negro” ou mestiço de Campinas
Warney Smith Silva
