Arte&Cultura

OS REGISTROS ORIGINAIS DO BOI FALÔ – 4 (Vadão e César Nunes, 1983)

           O quarto registro é o mais completo e bonito que encontramos até agora. Ele demonstra claramente o real sentido não só do Boi Falô – que não se trata de uma “mentira pra não trabalhar” ou de “resistência de escravo contra a escravidão”, mas de algo muito maior que é a crença  TRADICIONAL  (no exato sentido da palavra)  na concepção de que a história – assim como o universo – e movido por Deus e pelas forças sobrenaturais. Trata-se de  uma questão de fé de que Deus  ou entidades sobrenaturais moviam “animavam” (ou davam alma) a natureza a se comunicar e cobrar dos humanos os mandamentos de Deus.

Ele foi registrado pelo atual professor  da Faculdade de Educação – Unicamp, e ex vereador César Nunes em 1983, e que na época  era ex seminarista, professor de Filosofia, recém casado e, como  sempre foi, parte da Comunidade  da Paróquia Santa Isabel.

César Nunes  entrevistou um senhor, seu Vadão de Oliveira, (Osvaldo de Oliveira) nascido em Barão, trabalhador de fazendas e sítios, analfabeto, mas que conhecia muito de terra.  E contou o caso  em “dialeto caipirez” ou caipira – como já se fala  no sendo comum, mas que – embora venha quase que totalmente desaparecendo, ainda é objeto de estudos em universidades. “Figura típica  estimada por todos. Escolhemos sua versão  por considera-la a mais comum e “pura”. Tentamos reproduzir, quanto possível , as formas tipicas de sua linguagem” – declarou  em nota no artigo  Cesar Nunes. Não temos – ainda – uma foto dele.

Sua entrevista foi bastante longa e  o professor Nunes transcreveu em “caipirez” mais de 3 páginas  falando não só o causo do boi como sobre o sentido da Semana Santa, os costumes católicos antigos (sobretudo entre o povo da roça) e como era  Barão Geraldo daquela época.

“prá não manchá o dia santo com o trabalho…”

“….O causo se passô na fazenda Santa Genebra já faz muitos e muitos anos atráis. Tem inté o Capão do Boi, aquele broquinho de mato perto da estrada que vai pra cidade hoje. E o povo tem respeito por aquele lugar. Ninguém corta as arves dali. É o capão adonde o boi falô. Inté eu num sei di quem são aquelas terra. Deve de havê um dono. Pois já num inziste mais as terra de ninguém como no tempo antigo.  Eu sei que era num tempo consagrado, pois era Semana Santa , dessas de antigamente, cheia de reza e procissão, de jejum e respeito. Hoje num tem mais destas coisa.  Mas os antigo fazia questão de arrespeitá a religião de nosso sinhô Jesuis Cristo. Era sempre um respeito tão grande qui num se  vê mais nas igrejas e nas famias de hoje. Eu me lembro que os pai chefe di famia proibia todu mundo de ouvir radio, de assoviá, de cantar modas e até de dar risada na semana santa. A moça das casas cobria os quadro e os santos de paper roxo que tudo haverá de lembrar a dor de nosso sinhôr e ninguém havia de si ri naquele tempo consagrado. Nem tratá dos animar  se tratava na sexta-feira maior. Se tinha que colocá as provisão dos bicho em dobro pra não manchá o dia santo com o trabalho. Era tudo um tempo avechado e a  gente vivia triste pela morte que os judeus  dero em nosso sinhôr Jesus. A comida era uma sopinha rala ao meio dia, pras criança, e os marmanjo  jejuava pra pagá os pegado de todos os pecadores. Tinha sentido pra nóis tudas estas coisa. E o povo ia em bando rezando a procissão do senhor morto”

Pois bem, era nessa sexta-feira maior , e parecia que tudo tinha se elevantado triste e tempo fechado. Os passarinho  não cantava, o tempo zunia assim devagarzinho com tristeza de viver aquele dia. Foi aí que o povo devoto da fazenda se apreparava pra meditá as coisa  di nosso sinhôr, os mais joves se enleava na feitura de um juda pra maiá no sábado  di aleluia. Muita gente havia também  que fazia estrepolia na noite da sexta-feira santa, pois os antigo dizia – e isso me intrigava que preciso pergunta prum padre – que na sexta-feira de noite Deus ficava na sepultura e não via os pecado do povo, porisso muita gente saia robá galinha, porco das casa, porque ele não tava vendo. Será isso verdade?

O fato e qui o capataiz alevantou-se meio brabo e queria obrigá todo mundo a trabaiá neste dia. Acho que isso foi no tempo dos escravos. Mais mermo os escravo sempre tivero religião e respeito por esse santo dia. E o capatais fez o povo ir trabaiá, contrariando o gosto e o respeito, e eu juro, seu moço qui se fosse eu , num ia. Mermo qui fosse mandado embora, primeiro  lugar deve di si por Deus e as coisa dele,  do que o trabaio. Mas o capataiz deve de tê obrigado os escravo de ará o campo, e eles tivero  de ir, pois que os empregado deve di obedecê os patrão… (silêncio)

O capatais então…. i eu vô incurtando a história pra mim num si cansá demais qui num tô mais pra tanto isforço de pensamento que confunde a cabeça de alembrá esses fatos passados. O capatais fez os empregado  ir trabaiá na terra e quando ele chegô pra  ferrar os arado no boi, (ó… eu arrepio  de pensá nisto  qui nem quando os antigo contava com respeito pra nois criança) – o boi se elevantô e falô: “Hoje num é dia de trabaiá, hoje é dia santo di nosso sinhô!” – Diz que o home saiu correndo e deixo tudo os apetrecho ali, destabanô até a fazenda e contô pro capataiz. O home num aquerditô, (o mardito… qui Deus me perdoe) e diz que queria vê di perto pra sabê a verdade.

Ja vinha ajuntano povo que se benzia ao escutá o causo dizendo que aquilo era castigo de Jesus morto, pelo desrespeito de trabaiá.  E a curpa era mesmo do capatais, qui o povo daqui  sempre respeitô o dia santo , e é povo bão. O capatais foi até o Capão do Boi , que tava lá deitado, ruminando o bicho, que inté a gente  chama di sagrado…. ali deitadinho feito aqueles qui a gente vê em presepe. Eu quando vejo aqueles boizinho no presepe me alembro do Boi Falô ali deitadinho, olhando os zóios grande du capataiz condenado. E o capatais então escuitô bem arto o que o boi falô pela outra veiz: “Hoje num é dia de trabaiá, é dia de descanso de Nosso Sinhô Jesus Cristo!”

Diz o povo que o home ficô mudo e tremia que nem os bambu ali do caminho da fazenda. E si retirou  di mansinho. Di boi ninguém viu e num sabe ou intão os antigo num quiz contá pra nois. Eu acho que era um bicho de respeito e inté consagrado se vivesse por ali. Porque ele deu uma lição nos patrãos que não arrespeitô o povo e a religião qui o povo tem. O capatais também acho que sumiu-se, eu ouvi falar qui destino tomô. O certo é qui ninguém mais trabaiô em dia santo, por muito tempo, até por medo e por respeito da lição que o bicho deu no povo. E foi assim que eu aprendi a historia do boi, seu Césa. E eu querdito nisso , qui é uma história que tem fundamento. Pois Deus pode tudo no mundo , num é? Tem gente que num aquerdita, muita gente zombava do povo de Barão. Devia de sê inveja, ou até mardade.  Mais o povo daqui sempre si considerô o povo do boi falô, e o povo por aí sempre respeitava a gente.  Aquerdita quem qué… Coisa do povo é assim mesmo , aquerdita quem qué….”

(copiado de “A Terra do Boi Falô: um estudo do folclore religioso brasileiro” artigo de César Nunes , menção honrosa  de um concurso de 1983.) pg 4-8

NÃO TEMOS – AINDA – UMA FOTO DE VADÃO QUE QUERIA CONSEGUIR . POR ISSO AI VAI UMA FOTO DE CÉSAR NUNES DE 1992

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César Nunes em debate para vereador  promovido pelo  JORNAL DE BARÃO  em agosto de 1992

Warney Silva

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