Arte&Cultura

Milton Bosso lança “NO MEIO DA VIDA – Desvendando os porquês”

No Meio da Vida – Desvendando os porquês” é um memorial nas palavras do cabeleireiro Milton Rafael Bosso  editado em 2018 pela  conjunção entre as editoras  Brasilica  e In House, de Jundiaí.

Quem espera mais um manual de auto-ajuda, pode se frustar. O livro trata muito dos sentimentos, tão delicados e íntimos, mas são os sentimentos de Milton.  Nele o autor conseguiu desvendar grande parte dos porquês de sua vida. Sem dúvida é uma leitura inspiradora e delicada. A todo momento somos tocados por passagens que nos enchem os olhos. Ora por momentos alegres, ora tristes.

É difícil não ser tomado por lembranças. Quem nunca teve um coração partido? Quem não teve uma perda muito dolorosa? A sutileza que Milton trata dos assuntos traz uma triste nostalgia. De repente surge aquela noite que guardávamos no nosso baú de memórias. É curioso notar como compartilhamos muitas vezes o mesmo sentimento com diferentes experiências.

Milton nasceu e passou sua infância em Barão. Morava na Rhodia, onde seu pai trabalhava. Sua mãe, fundou a EMEI Agostinho Pattaro, e também estudou lá. Teve seu primeiro contato com a arte através do teatro, onde era maquiador e cabeleireiro

Antes de qualquer coisa, é um livro sobre sentimentos, sobre resiliência. Quem pensa que ele está conformado, Milton têm uma resposta

Existe uma diferença entre conformismo e aceitação. O conformismo é quando você se conforma com uma situação mas não se resolve com aquela situação, então é sempre daquele jeito. A aceitação é quando você aceita a situação e em que você vive e você resolve de outras maneiras. A vida é assim, pagamos um preço pelas escolhas, ou não

Milton não queria publicar esse livro, ainda bem que fez, “Poucas vezes me senti tão tocado por uma leitura sincera, que saiu como grito por quem escrevia, e soa como um sussurro pra quem lê. Uma bela história, de erros e acertos. Vale a leitura.

Confira a entrevista, onde conversamos sobre o livro, o início da sua carreira como cabeleireiro no teatro e um pequeno retrato de Barão Geraldo.

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Milton Bosso

JB – Você é de Barão Geraldo mesmo?

Milton– Sim nasci aqui em Campinas. Morei na Rhodia 14 anos da minha vida. Meu pai trabalhava lá e minha mãe fundou o Parque Agostinho Pattaro em 1969, que agora é uma EMEI. Mas desde de sempre, como ela vinha para cá, a gente vinha com ela para Barão, então me considero nascido e criado em Barão Geraldo. Conheço isso aqui desde quando era matagal e pasto.

JB – Como veio essa ideia do livro?

Milton – surgiu por necessidade, não tinha intenção literária para escrever. César Nunes, meu amigo, me estimulou a colocar num papel o que estava vivenciando, mesmo que jogue fora depois, só que eu nunca joguei. Não vislumbrava término para o livro. Com o falecimento de minha mãe, conclui que estava encerrando uma etapa da vida, então encerrei o livro. Nunca tive intenção literária, é como se fosse uma catarse, uma terapia individual. Levei para o César, ele gostou e minha editora vai lançar pra você.

JB- O formato é um tanto ambíguo, como você o classifica.

Milton – Não almejei o formato do livro, apenas fui fazendo. O livro tem várias fases e várias formas de escrita. Não me baseei em nada, eram coisas que foram saindo e a forma que ele acabou se juntando mescla um pouco de tudo. Primeiro surgiram os poemas do livro, e aí depois eu criei os textos para ir amarrando eu vim meio que datando, colocando no transcorrer do texto e vim datando com os poemas, e foi virando um memorial.

JB- Têm um escritor favorito?

Milton – Cora Coralina. a leitura de Cora para mim, é como se eu estivesse conversando com Cora.Eu vou lendo e lendo e me alimentando de Cora.

JB – A sexualidade parece ser um tema caro à você, pode falar sobre?

Milton – O foco do livro não é minha sexualidade, eu acho que quando você rotula uma pessoa, se é homo se ela é hetero, você tá estigmatizando uma pessoa, o foco principal do livro é sobre sentimentos. O sentimento aflorar e eu não saber o que eram esses sentimentos. De formas que diferem da forma das outras pessoas. Quando você se conhece, você se resolve. Eu comecei a escrever esse livro há 30 anos. Uma memória bonita de um crescimento pessoal que foi resolvido.

JB – São lembranças muito bonitas, outras são dolorosas foi fácil escrever?

Milton – Eu sentava para escrever eu não tinha pudor em escrever, eu vomitava no papel o que eu tava sentindo, não tinha pontuação não tinha nada. Muitas vezes, e todas as vezes no outro dia eu relia algumas coisa tinham sido muito intensas que eu acho que não caberiam nem pra eu ler, eram desabafos meus que você faz no chuveiro. Então eu ia limpando ia colocando num formato mais agradável pra mim. Então cada vez que eu fazia uma escrita que eu já tinha feito era como se eu tivesse resolvendo aquela própria escrita

JB – O teatro foi uma parte importante na sua vida, como você diz, iniciou seu interesse pela arte através do teatro. Como tudo começou?

Milton – Havia um grupo popular de teatro aqui no salão comunitário. E eles iam estrear, estavam fazendo a peça “Eles não usam black tie”, um dos atores não tinha cortado o cabelo, era um rapaz novo e ele precisaria envelhecer. E o diretor do teatro me chamou se eu podia cortar o cabelo dele, era uma sexta e a peça ia estrear no domingo. Eu fui, mas não tive coragem de cortar o cabelo dele porque era um cabelo muito bonito. E eu fiz toda a caracterização dele, pra envelhecer, e eu comecei a acompanhar o grupo pra fazer essa caracterização. 

JB- você também atuou?

Milton – Sim. Uma coisa puxou a outra, um ator estava ensaiando uma outra peça da Maria Clara Machado uma peça infantil, e um ator um mês antes da peça não quis mais fazer e como eu acompanhava o ensaio para fazer o figurino, já sabia todas as falas de cor. Acabei ingressando na peça, fizemos alguns outros trabalho também, fizemos o túnel do Dias Gomes com o pessoal do teatro da Unicamp.

JB – Foi uma boa experiência então?

Milton – O teatro para mim mostrou que existe um mundo fora de casa. Eu sempre fui muito reservado, apesar  de ser muito expansivo eu sou muito tímido em me expor, eu sempre tive muita dificuldade. No teatro não sou que estou no palco, é um personagem. Então pra mim era uma vivência extremamente prazerosa, me abriu muito a cabeça em perceber que podemos ser o que quisermos ser dentro de um contexto de mundo, de um contexto social e levar pras pessoas outra forma de conhecimento. O teatro pra mim foi um marco na minha vida, eu saí de uma estagnação para uma vida.

JB – Você está no distrito desde anos 60, qual sua relação com o distrito hoje em dia?

Milton – Eu nasci em Barão. Então conforme Barão foi crescendo, foi dando uma sensação de prosperidade, de modernização, isso pra quando somos criança e adolescente isso é muito legal, você vê a sua terra crescer, construções pipocando, né isso é muito legal. A gente teve uma expectativa muito boa, começamos a ver mercados, comércios, aparecendo. Quando a Unicamp começou a ser criada ficamos “nossa vai ter uma universidade aqui”. Só que não temos a dimensão do preço que se paga por isso. Hoje na minha quadra, se tivermos 5 famílias é muito , o resto é tudo republica, nao temos problemas com nenhumas delas. Hoje com 56 anos eu vejo o preço que pagamos, talvez com o saudosismo de uma época anterior. o preço que a gente paga pelo modernismo, pela modernização, pelo crescimento. E cresceu de uma forma muito, desregrada. 

E temos uma prefeitura (Campinas)  que insiste em lançar para a mídia que Barão Geraldo é um bairro  de classe AAA, onde só tem milionário, Só que não é essa a realidade. Fora uma série de questões de infraestrutura. Na verdade nos temos desde de pessoas com um poder aquisitivo muito alto, até favelas. Entao a gente esta entre meios , entre um passado que era muito legal muito seguro, e uma visão distorcida de uma sociedade.

Eu jogo isso pra Prefeitura de Campinas que nos coloca num padrão superior e nos cobra por isso. Barão Geraldo se tornou muito caro para viver! Moro eu e minha irmã aqui, graças a meus pais que construíram essa casa. Hoje não teríamos condições com nosso ganho de morar em barão Geraldo se não fosse por eles. E eu vejo muitos amigos abandonando Barão por conta disso.

JB – Esse é o principal problema de Barão pra você? Ou tem outros?

Milton – Tivemos um índice muito alto de violência aqui, Mas melhorou muito a violência aqui.Eu acho que tá muito legal, fora alguns casos horrorosos de estupro que a gente presenciou um tempo atras na Unicamp. Acredito que ja foram resolvidos porque a gente não houve mais falar. Mas barao geraldo hoje pra mim se tornou um lugar que a gente pouco conhece as pessoas. Não tem mais nada a ver com barao geraldo antigo. Hoje nos conhecemos os vizinho e ano a ano a gente conhece pessoas novas que sao pessoas que estao vindo. E essas pessoas vem com essa imagem que é passada para elas, de um barao seguro, legal… Olha eu queria dizer que a realidade nao é essa.

JB – Voce é a favor de  Barão virar município?

Milton – Eu participei de uma época de uma tentativa de tonar Barão Geraldo município, E os baronenses querem que barao vire município.  O ultimo dado que eu tive conhecimento foi que Barão Geraldo recebe 11% do PIB de Campinas. E não é repassado pra gente isso . Só que na minha ignorância eu achava que bastava que os baronenses querer se emancipar.  Mas depende de Campinas votar se Barão vai. E Campinas não vai abrir mão de Barão Geraldo. Temos a subprefeitura que pouco pode fazer, porque elas também estão atreladas a Campinas. Pouco podem fazer porque não tem mecanismos para isso. Então é utópico pensar numa subprefeitura quando pouco se resolve. E  não por incompetência, mas porque não tem condições mesmo!

JB- É na verdade  ate 1990 quando era permitido  se criar outros municípios não era assim a Lei. Haviam requisitos, mas quem decidia eram somente os moradores do distrito em plebiscito. Só que em 1990 foi criada uma Lei federal  impedindo de  que seja criado qualquer município. Por isso que na última vigência dessa lei  Betel se inscreveu pra se separar de Campinas e passou a ser de Paulinha em 1992. E hoje há um grande movimento nacional tentando derrubar essa proibição , Principalmente no Norte e Nordeste.

Milton  – Bem Mas voltando nesse aspecto de você ponderar as coisas, na situação hoje em que eu vivo, eu me adequei a Barão Geraldo de hoje. As pessoas com seus 70 80 anos não conseguem, porque foi muita transformação! Eu e minha irmã a gente se adequou e pronto acabou. A gente fez de Barao a nossa vida Eu dificilmente penso em sair de Barão Geraldo. Mas eu acho que o distrito hoje, a gente tem muita opção cultural, Esta no calendário da prefeitura em vários eventos.  É legal e muito problemático!  Volto naquela questão, voce atrai um publico gigantesco e não da estrutura pra esse publico! Você não da estrutura para os foliões. Nesse ano a gente teve até um carnaval mais organizado com banheiros públicos e tal, que é o que se precisa pensar. Não adianta você querer colocar um ônibus dentro de um fusca, mas minha relação com Barão Geraldo hoje é muto agradável. Eu frequento a comunidade, frequento o comercio , frequento os bares, Eu tenho amigos em Barão, raramente eu saio daqui A gente vai ficando fixado nele, e e é muito confortável.

JB – Ok  Milton Alguma coisa  a acrescentar? 

Milton – Não . Só convido vocês a lerem o livro. Acho que vocês vão gostar

Vinicius  Fonseca

No meio da vida desvendando os porques

 

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