Ambientalismo

Plano Diretor e novos empreendimentos reforçam a necessidade da luta pelo Parque de Barão e patrimônios

por Vinícius  Fonseca

A liberação  do novo Plano Diretor de Campinas pelo Tribunal de Justiça e sua regulamentação pelo  LUOS  (Lei de Uso e Ocupação do Solo) pela Câmara começou a possibilitar a implementação de novos empreendimentos que só aguardavam a aprovação e que ameaça  drasticamente não só a qualidade de vida como a essência e a identidade do conjunto de bairros que formam Barão Geraldo.

Conforme já abordamos em outras reportagens , a liberação do Condomínio Villa Flor na Estrada da Rhodia , margeando o Ribeirão das Pedras e derrubando mais de 60 árvores bem antigas  e no Alto da Cidade universitária, fortalecem a possibilidade de liberação de vários outros loteamentos já solicitados ha até décadas. Como o Reserva D Pedro, loteamentos  próximos à Mata Santa Genebra,   atrás dela (área Montagner) ao longo da estrada da Rhodia e da Zeferino Vaz, das avenidas Gilberto Máximo Scolfaro (Tijuco)  e   além de um loteamento já projetado para a área que resta da Fazenda Rio das Pedras – além da área tombada pelo CONDEPACC (Conselho  de Defesa do Patrimônio Artístico  e Cultural de Campinas) mas que precisa que a área seja transformada em área urbana para que possa ser loteada.

Mas quais serão os resultados e consequências dessas aprovações para Barão?

“Vamos transformar a fazenda em parque” é um movimento criado pelo arquiteto Manuel Rosa Bueno em 2011. A área possui 4.650.000m2 e abriga uma rica área
em termos de patrimônio ambiental e histórico-cultural, contando com as áreas tombadas pelo CONDEPACC.  A criação do movimento do movimento foi realizada pela necessidade de preservar a área. “O movimento surgiu da mais legítima pressão e influência da própria área em si, é uma área linda, muito bonita quando você chega lá você se encanta e pensa que é um santuário da natureza. Então por si só, ela já clama pela sua defesa, por si só ela já diz.” conta Manuel .

Mas não é somente pela beleza do lugar que eles pedem sua preservação. O maior problema é o impacto real que o desmatamento da região fará em Barão Geraldo. O primeiro deles é o aumento da população. O movimento estima que a população do Distrito dobrará com a urbanização da área. Aumentar o perímetro urbano da região também significa aumento dos impostos. Quando uma região torna-se urbana, é necessário uma série de medidas: asfaltamento, luz elétrica, rede de esgoto, água encanada, e todos esses processos aumentam geram prejuízos ambientais. A fauna da região também será afetada. E Bueno  enfatiza isso:

“Existem matas tombadas pelo CONDEPACC e o corredor ecológico. Então quero enfatizar aqui a importância da questão do corredor ecológico na questão ambiental O corredor ecológico que faz essa conexão entre a Mata Santa Genebra e outras áreas de preservação de Barão. E ele necessariamente passa por dentro da fazenda”.

Outro dos líderes do  movimento , Ílio Montanari, diz que é preciso também lembrar das várias nascentes existentes na área e do problema hídrico que haverá, “se a fazenda virar cimento“.

Os organizadores estão se reunindo na Praça do Coco todos os finais de semana colhendo assinaturas e divulgando suas pautas, atualmente já contam com quase 25 mil assinaturas, quase metade da população do distrito. É preciso salientar que a transformação em Parque, não será realizada em toda a extensão da Fazenda. Segundo Manuel, Barão Geraldo, por ser um distrito com aspectos de zona rural, têm um grande contingente de árvores, graças  também à população ser consciente e que por isso tem um alto valor na especulação imobiliária. “As zonas verdes são muito procuradas para a criação de condomínios de classe A.”

O projeto do Parque prevê 80% da área para o parque e o restante ficaria a cargo da
especulação imobiliária.
Nós não queremos a desapropriação da área, eu acho que quando a gente fala da criação do parque, nós propomos que 20% da área da fazenda se torne urbana, quando a gente torna uma área rural em uma área urbana, ela valoriza em sete vezes o valor, porque o proprietário vai poder parcelar isso em pequenos lotes, isso valoriza muito o metro quadrado dessa área. Assim, não haveria prejuízo nenhum para o proprietário da fazenda, não haveria prejuízo nenhum para a população, é a população conseguiria um parque maravilhoso
Os benefícios para a população vão além da preservação ambiental, aumentaria a qualidade de vida, teria a questão da educação ambiental, um espaço de lazer  não só para os baronenses, mas para toda a região da Grande Campinas.

Por outro lado, o desmatamento da região provocaria uma aumento da poluição em Barão e na região. Paulínia abriga o maior polo petroquímico da América Latina e a floresta é responsável por grande parte da absorção da poluição da região.

Como diz o arquiteto  Manuel, a questão paisagística, a questão histórico cultural e a área tem importância também como área social, como sendo um parque.  “Vai dar saúde mental, vai dar educação ambiental, esportes, contato com a natureza ar puro, tudo mais, para a população e vai ser uma área de lazer muito importante. A mais importante de Campinas e uma das mais antigas da cidade. E com certeza e tem essa importância social também por causa disso.”

MOVIMENTO SEMPRE ESTEVE EM TODAS AS CONSULTAS OFICIAIS
Conforme lembrou Manuel a vontade de transformar a área em Parque foi apresentada na prefeitura em todas as reuniões do Plano Diretor, mesmo assim, a prefeitura aumentou o perímetro urbano. O movimento já conta com moções de apoio de Campinas, CONDEPACC, CONCIDAD e do CONDEMA (Conselho de  Desenvolvimento do Meio Ambiente) que, apesar de serem independentes da Prefeitura, têm participação nos processos da cidade. Além disso, também já participaram de uma audiência pública com a presença de todos os vereadores de Campinas, também foram até Brasília numa outra audiência, promovida pela Comissão de Meio Ambiente. “A prefeitura está a par de todas essas reivindicações.
O Plano Diretor atual (2019) criou duas reuniões de levantamento da vontade da população aqui em Barão Geraldo. Em cada uma dessas reuniões foram formados 5 grupos , eram mesas em que se colocavam os mapas em cima  das mesas e pedia-se para os moradores presentes escreverem ou colocar dentro do mapa aquilo que gostariam que acontecessem na região de Barão Geraldo. Em todas os grupos formados, em todas as reuniões, a reivindicação unânime foi a criação do parque, depois quando a gente teve as reuniões devolutivas da prefeitura, de qual seria o projeto nós reafirmamos para a prefeitura que gostaríamos de ter o parque. A prefeitura também fez uma enquete dentro do site do Plano Diretor, perguntando da expansão urbana, inclusive no próprio site da prefeitura a enquete foi a favor da defesa dessa área do parque.”

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Quero Ajudar!
Os organizadores ficam na Praça do Coco todo sábado pela manhã na famosa Feira de Barão. Se não conseguir comparecer no dia, pode entrar em contato através do grupo do Facebook “Vamos Criar o Parque de Barão Geraldo”, você encontrará fotos e vídeos do lugar, compartilhe com seus amigos, mostre esse patrimônio de Barão.

Secretário é favorável mas depende de projeto

O secretário do Verde e Desenvolvimento Sustentável Rogério Menezes  disse ser favorável a criação do Parque de Barão nos  moldes propostos pelo Movimento Mas ressalta que a prefeitura não tem recursos para desapropriar a área. Cabendo apenas  ao proprietário concordar com a proposta. Rogério  considera a luta pelo parque  legitimo “A defesa do Parque na Rio das Pedras é legítima e  tem meu total apoio. Mas não há condições de desapropriação e sua implantação com recursos públicos. De forma similar ao que aconteceu no Parque Natural do Campo Grande pode ser viabilizado a partir de futuro empreendimento privado em parte da área. Espero que projetos imobiliários no entorno ajudem a viabiliza-lo.“. – declarou

Mas Rogério ressaltou que as condições não são iguais porque no caso do Parque Natural do Campo Grande é unidade de Proteção integral, viabilizado a partir de empreendimento “lindeiro”. E no caso do Parque Rio das Pedras não há empreendimento proposto até o presente, não havendo unidade de proteção criada. E segundo ele, para que o prefeito possa exigir a implantação do Parque como contrapartida, é preciso que haja projeto de empreendimento submetido à aprovação junto ao governo do Estado e Prefeitura  (no caso, considerando a proposta dos 20% da área) E após aprovação prévia no Governo do Estado, através do Grapohab. “Nesses casos teremos que emitir Exame Técnico Municipal e aprovar possíveis empreendimentos posteriormente, o que poderia viabilizar o Parque”  – declarou Menezes.

 

UM  DOS MAIS ANTIGOS PATRIMÔNIOS HISTÓRICOS  DO PAIS

Além da própria questão ambiental e social, o valor histórico da Fazenda Rio das Pedras é fundamental para a região como comenta o historiador Warney Smith em seu livro que deverá ser lançado. A Rio  das Pedras já existia como engenho com esse nome em 1780 conforme contava a tradição (de pai pra filho) da família Sousa Barros que a recebeu por Sesmaria em 1798 e que a manteve sob seu domínio  até 1954. Além de todo o histórico  dessa fazenda  que é possível de recuperar, a partir dos inventários das famílias, notas  das Câmaras, livros de tombo etc.

Segundo Warney, a Sesmaria  ia do atual bairro do  Guanabara  (a sede do IAC foi comprada do que restou  dessa sesmaria  e a Fazenda Santa Elisa também) até pelo menos a fazenda Santa Terezinha (quase metade de Paulínia) Joluma Brito  diz que ela ia até o Funil ou Cosmópolis, porem ainda não se tem provas de que as antigas terras no meio do caminho foram adquiridas dela ou não. Ele conta que há registros de vários padres e vereadores que foram administradores, de fugas, quilombos e batalhas registradas em documentos. Com inúmeros exemplos de como funcionava a Sociedade de Corte e escravocrata no país Não só da politica, Mas também sobre a questão dos transportes na época, da saúde, da alimentação, das relações de gênero, da religião etc. E sua preservação e divulgação É URGENTEMENTE NECESSÁRIA  para a História do pais  todo. Não só para  Campinas. “Além disso praticamente 80% de toda população original de Barão Geraldo e de toda a área de Barão e Unicamp surgiu da  fazenda Rio  das Pedras. Além das duas primeiras igrejas e comércios, todos os antigos e primeiros moradores  vieram da fazenda Rio das Pedras e  moraram em uma de suas antigas Colônias” – disse ele.

Já todo o complexo arquitetônico tombado da Rio das Pedras, segundo ele, é relativamente recente e foi criado e refeito por Almeida Prado  já na passagem os anos 1950/1960. Ele derrubou o antigo “Quadrado” (a senzala) e buscou se basear no estilo arquitetônico do Haras do irmão em Cotia-SP , de quem era sócio.  “E é por isso  que precisa ser preservado. Foi ele quem recriou o “Tanque” – como ele e os antigos moradores chamavam – que é o que o movimento e todo mundo de fora chama de Lago ou lagoa – e criou o modelo paisagístico, plantando centenas de árvores européias  – sobretudo pinheiros – em torno do Tanque. E fortaleceu também o pequeno bosque atrás dele  com essas árvores estrangeiras  que Almeida Prado chamava de “reserva”. Além disso  ele mandou construir uma pista de pouso de teco-teco  (pois ia sempre em Buenos  Aires, terra de sua esposa de avião)., criou um belo jardim em frente à sede, no lugar do antigo Quadrado com aquedutos de pedras portuguesas, outros lagos menores com vitoria régias, rodas dágua, reformou a oficina de café e foi  um dos primeiros fazendeiros a contratar pela legislação varguista.  “O correto seria a Unicamp ter comprado essa fazenda e não a Argentina , justamente para preservar sua enorme riqueza e recursos. É fundamental que o parque abrigue não apenas centros de pesquisa em Educação Ambiental, mas também Centros  de Pesquisa e Preservação  Histórica de Barão Geraldo, da fazenda, do café, do açucar da historia das migrações, da escravidão etc. Pois não temos isso por aqui inexplicavelmente. Nenhum patrimônio histórico de Barão foi preservado!”

Toninho Moda (271)

Interior da sede da Rio das pedras é como um Museu histórico (foto Antônio Moda 2005)

HISTÓRICO DA FAZENDA RIO DAS PEDRAS  
A fazenda é originária de um engenho, o  Engenho Nª Sª do Carmo do Rio das Pedras e de uma sesmaria doada a Francisco Antônio de Souza. Após a  morte de seu filho, em meados do século XIX, a sesmaria foi dividida em duas fazendas, a Morro Alto (que depois da morte de  sua proprietária foi batizada de Santa Genebra) e a Morro Grande, administrada pela família Barbosa de Oliveira até 1954 com a compra de João Adhemar de Almeida Prado.
Almeida Prado reformou a fazenda e tornou-a um “Haras modelo” nos moldes do outro Haras de Cotia de seu irmão e sócio.  Nessa época  Adhemar havia se casado novamente. Quando ele faleceu em 1976 , quem ficou  administrando a fazenda foi a ADALPRA S.A., empresa criada  por João e  que tinha uma diretoria eleita. E com a morte da esposa, Esther Caputto de Almeida Prado,  em 1983, seu irmão Mário Horácio Caputto, criador de cavalos e  que era parte da diretoria da Adalpra, ficou  sendo o principal controlador da Fazenda. Em 1992 seu filho homônimo passou a ser o principal controlador da Rio das Pedras e que, com a ajuda de advogados,  conseguiu vender partes da Fazenda para pagar dívidas .O que deu origem aos condomínios  Rio das Pedras  e  Barão do Café. As antigas  fazenda Quilombo (Jardim do Sol, Solar de Campinas, Terras  do Barão, Vila Holandia, Vila Florida etc, Eudóxia (parte do Guará), Boa Esperança  e São Francisco (atual Rhodia)  também eram parte da antiga fazenda Morro Grande ou Rio das Pedras.

 

Processos de tombamento

As matas possuem ainda alguns fragmentos de vegetação remanescente das Florestas Estacionais Semideciduais, características dessa região. A lagoa da Fazenda Rio das Pedras é o ponto de captação das águas provenientes do Ribeirão das Pedras (que nasce no bairros  Mansões, Alto Taquaral, etc) e também  das nascentes do Recanto Yara, situado ao Sul e das águas provenientes do córrego que atravessa o Jardim Novo Real Parque e Vila Santa Isabel situados a Sudoeste.

O processo de tombamento das áreas brejosas da fazenda pode ser visto aqui: 005/03 Área Brejosa da Fazenda Rio das Pedras e Maciço Arbóreo
O processo de tombamento do Conjunto Arquitetônico pode ser visto aqui: 012/01 Conjunto Arquitetônico da Fazenda Rio das Pedras –  Barão Geraldo

O Processo de tombamento das Matas e e Lagoas pode ser baixado aqui: Processo 006/97 O processo de tombamento das áreas brejosas da fazenda pode ser visto aqui: 005/03 Área Brejosa da Fazenda Rio das Pedras e Maciço Arbóreo

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Área da  fazenda que o Movimento reivindica como  parque de Barão

 

1 resposta »

  1. so uma duvida e os moradores que ali nasceram e viveram ate hoje ? para onde vao ? suas historias suas origens ? sera que alguém pode me informar ? e outra questão, quem garante que este parque não ficara abandonado como muitas pracas de barão Geraldo? sem iluminação , mato alto ? mas um local abandonado ?

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